Minha despedida da farda aos 27 anos de serviço.

Por: Luiz Fernando Ramos Aguiar

Poucos dias antes de completar 27 anos de serviço, fui transferido para a reserva remunerada. O dia que parecia tão longínquo chegou quando menos esperava. O sentimento de alegria — por poder dedicar mais tempo à família e aos projetos pessoais — se mistura à tristeza de nunca mais poder envergar o uniforme que, por quase três décadas, foi uma espécie de segunda pele. A certeza de nunca mais atender a um chamado de ocorrência, de sentir a adrenalina ao acionarmos a sirene ou de lutar ombreado com os melhores homens e mulheres do Distrito Federal aperta o coração de qualquer policial militar.

Mas não posso deixar de agradecer a Deus por ter sobrevivido, sem maiores sequelas, a todas as dificuldades e riscos da carreira — que não são poucos. Agora, assistirei de longe meus irmãos de farda dedicarem suas vidas à proteção de pessoas que, muitas vezes, nos desprezam e subestimam a dedicação e o compromisso que assumimos, mesmo com o risco da própria vida. E vimos, com a alma angustiada, alguns amigos levarem esse juramento até as últimas consequências.

Mas o dia é de comemorar. Celebro meus companheiros de turma, que hoje comandam batalhões e ocupam posições estratégicas na corporação. Tenho certeza de que toda a experiência que adquirimos nessas décadas de serviço de rua — e nas mais ingratas posições administrativas — será revertida em decisões prudentes, ponderadas e eficientes, com o olhar de quem conhece o que há de melhor e pior em quase todas as esferas e vertentes da corporação.

Aos meus amigos da Cia Brutus, que hoje completam esses 27 anos de serviço, desejo todo sucesso nas missões. Que continuem na lida com a excelência, o comprometimento e a dedicação que sempre demonstraram — mesmo diante das injustiças, das decisões covardes e das adversidades cotidianas da vida policial militar.

Em breve, a lendária Cia Brutus será apenas uma lembrança na mente daqueles que trabalharam com seus integrantes. E, em mais alguns poucos anos, provavelmente seremos esquecidos pela maioria dos policiais da ativa. Mas nosso legado não será medido pela memória dos que virão, e sim pelas vidas que salvamos, pelos policiais que formamos e por todas as nossas ações que, de alguma forma, garantiram que milhares de cidadãos do DF jamais precisassem se preocupar se nós existíamos.

O que fazemos em vida ecoará na eternidade. Que, quando nossas obras forem provadas pelo fogo consumidor, no julgamento final, o Senhor possa reconhecer nossa contribuição.