Por: Luiz Fernando Ramos Aguiar
Não é novidade que as forças de segurança no Irã utilizam, como estratégia de repressão, a tortura e as agressões sexuais. Mas o recente episódio divulgado pela rede Iran International, e que teria acontecido no último dia 8 de janeiro, escancara a selvageria, a violência e a intolerância de um regime que se recusa a libertar seu próprio povo.
De acordo com a reportagem da rede, duas enfermeiras que trabalhavam em um hospital de Teerã e acabaram responsáveis pelo atendimento de manifestantes feridos durante a onda de protestos em janeiro foram torturadas e estupradas repetidamente, de forma coletiva, por agentes de segurança enquanto estavam sob custódia do regime.
As enfermeiras compunham a equipe médica do Centro Médico e de Pesquisa Cardiovascular Rajaei, em Teerã, que atendeu pessoas feridas durante os protestos massivos que eclodiram no fim de dezembro e se estenderam até o início de janeiro. As manifestações levaram milhões de pessoas às ruas, e a reação do regime teocrático foi de intensa repressão, com prisões em massa e uma estimativa de pelo menos 36.500 mortes.
TORTURA E ESTUPRO COMO FERRAMENTA DE REPRESSÃO
Uma das vítimas, enfermeira de 33 anos, foi abusada e estuprada sucessivamente durante o período em que esteve presa. Mas a violência não se limitou à violência sexual em seu formato mais conhecido. Os agentes a submeteram a diversas formas de tortura sexual.
Os estupros se sucediam em grupos de dois ou três agentes e eram intercalados com o uso de objetos e dos dedos dos agressores, que eram introduzidos de maneira agressiva e violenta na genitália e no ânus da vítima. As agressões foram tão brutais que a enfermeira sofreu intenso sangramento devido a lesões no intestino. Isso resultou na necessidade de remoção de parte do órgão e na implantação de uma bolsa de colostomia permanente.
Seu útero foi tão lacerado após as sessões de estupro que foram necessárias duas cirurgias, e os médicos afirmam que pode ser necessária a remoção completa do órgão para preservar a vida da enfermeira.
Os traumas impostos pelos vassalos do regime foram tão extremos que a enfermeira solicitou várias vezes aos médicos que a deixassem morrer e, caso sobrevivesse aos procedimentos, tiraria a própria vida.
De acordo com uma testemunha ocular, em relato à Iran International, o estado psicológico da enfermeira é tão grave que ela precisou ter as mãos amarradas à cama do hospital para impedi-la de se ferir e, mesmo assim, permanece sob a vigilância de agentes do Estado.
As mesmas fontes também afirmam que a segunda enfermeira foi vítima de estupro coletivo enquanto estava sob custódia. O padrão institucional das torturas é evidente pela semelhança das lesões, já que a segunda enfermeira também teve parte do intestino gravemente danificado e precisou receber uma bolsa de colostomia. Além disso, devido a uma grave hemorragia, precisou ter o útero retirado cirurgicamente.
Mas a crueldade do regime não se limitou às profissionais. A família de uma das enfermeiras foi obrigada a pagar quantias significativas de dinheiro a um agente de inteligência para garantir sua libertação.
Para a liberação da enfermeira, foi elaborado um documento afirmando que a mulher havia contraído um casamento temporário com um dos agentes, condição descrita como imprescindível para sua libertação.
Para justificar as lesões e as violações sofridas pela vítima, ela foi obrigada a assinar um termo declarando que, após sua libertação, confessaria ter sido abusada e estuprada por “manifestantes violentos”.
Confira a reportagem do Iran International:
REPRESSÃO NO HOSPITAL
O hospital, localizado na área de Vali-Asr, em Teerã, recebeu uma onda de feridos no fim da noite de 8 de janeiro. A partir das 21h, um número expressivo de pessoas feridas por munição real foi transferido para o hospital.
De acordo com fontes da Iran International, agentes do Estado envolvidos na repressão aos manifestantes deram ordens à equipe do hospital para não prestar atendimento aos feridos.
Dos 27 funcionários e enfermeiros presentes naquela noite, 14 se recusaram a cumprir as ordens e tentaram socorrer os feridos. Durante os atendimentos, dois enfermeiros foram presos após protestarem contra as determinações dos agentes.
Durante a confusão, dos 14 membros da equipe médica que resistiram, apenas sete enfermeiras conseguiram continuar prestando atendimento de emergência, aproximadamente até as 23 horas daquela noite. Após esse horário, membros das forças de segurança entraram no hospital e atiraram contra os pacientes feridos.
Os protestos dos funcionários do hospital contra os disparos contra os feridos foram respondidos com agressões. Eles acabaram sendo transferidos para um andar inferior do hospital, sendo posteriormente levados para uma área de armazenamento.
De acordo com testemunhas, entre as sete enfermeiras, duas foram baleadas e mortas na frente da equipe, e os integrantes remanescentes foram advertidos a não tocar nos corpos, que foram deixados onde estavam. Dias depois, as famílias das duas enfermeiras encontraram os corpos em Kahrizak.
As outras cinco enfermeiras foram presas e transferidas para um centro de detenção, e suas famílias ficaram sem informações sobre a situação delas por semanas. Local onde provavelmente ocorreram as terríveis sessões de tortura das duas primeiras vítimas descritas.
PREOCUPAÇÃO INTERNACIONAL COM O USO DA VIOLÊNCIA SEXUAL PELAS FORÇAS DO REGIME
Organizações de direitos humanos alertaram que os detidos durante os protestos enfrentam alto risco de tortura e violência sexual.
A Anistia Internacional afirmou que milhares de pessoas detidas em razão dos protestos no país corriam o risco de serem torturadas e sofrerem outros maus-tratos sob custódia, incluindo violência sexual.
As Nações Unidas também expressaram preocupação com a violenta repressão do Irã aos protestos e com o tratamento dado aos detidos, incluindo relatos de tortura e violência sexual.
Sara Hossain, presidente da Missão Internacional Independente de Apuração dos Fatos sobre o Irã, estabelecida pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU, afirmou que a missão reuniu evidências que apontam para graves violações dos direitos humanos cometidas pelas autoridades iranianas.
“As informações que reunimos apontam para graves violações dos direitos humanos, incluindo o uso desnecessário e desproporcional da força, resultando em assassinatos arbitrários, tortura, violência sexual, prisões e detenções arbitrárias e confissões forçadas”, disse Hossain em declarações ao Conselho de Direitos Humanos no fim de janeiro.
Outra investigação realizada pela Iran International, com duração de um ano, revelou o uso sistemático e generalizado de violência sexual por parte das forças de segurança contra manifestantes detidos durante a revolta de 2022, desencadeada pela morte sob custódia de Mahsa Zhina Amini, de 22 anos.
Em entrevistas exclusivas, seis manifestantes com idades entre 19 e 43 anos disseram ter sido estupradas ou abusadas sexualmente logo após sua detenção, inclusive dentro de viaturas policiais, em locais secretos e em centros de detenção.
Os abusos sexuais cometidos pelas forças de segurança iranianas não foram incidentes isolados. São parte de uma estratégia generalizada e sistemática para sufocar a dissidência.
Embora o abuso sexual tenha atingido indiscriminadamente mulheres de todas as idades, os depoimentos também revelaram que as autoridades empregaram a violência sexual como uma tática calculada para suprimir e intimidar manifestantes do sexo masculino.
O uso da violência física e sexual pelas autoridades iranianas para suprimir a dissidência é uma tática antiga, que remonta ao estabelecimento da República Islâmica.
A HIPOCRISIA DOS DEFENSORES DO REGIME
Enquanto o regime dos aiatolás segue massacrando seu povo para impedir a queda de uma ditadura que utiliza a violência sexual como arma, o governo brasileiro, intelectuais, influenciadores e artistas defendem a soberania de autoridades que não têm pudor em massacrar mulheres para impedir a ruína de sua revolução islâmica. Sob a proteção da democracia brasileira, que, embora enfraquecida, não permite o livre exercício da violência como arma política, eles fecham os olhos para todo tipo de violação dos direitos humanos, alegando protegê-los.
Ignoram que a situação no Irã é insuportável, a ponto de a população estar comemorando os bombardeios sobre suas cidades, mesmo com os riscos e os danos colaterais evidentes. E pense: quão ruim precisa ser um governo para que a população do próprio país sinta que um ataque estrangeiro seja algo benéfico?
O posicionamento do governo brasileiro quanto à crise iraniana agiganta nossa condição de anão diplomático, colocando-nos em alinhamento com os regimes mais intolerantes e genocidas do planeta. E o mais grave é que a defesa desse Estado totalitário monstruoso é realizada em nome de seu povo, que, na verdade, celebra com esperança uma chance de libertação de seus ditadores, mesmo sob o fogo dos mísseis americanos e israelenses.
*As informações desse artigo são da Iran International (https://www.iranintl.com/en/202603102323 )
