POR: Luiz Fernando Ramos Aguiar

A Expansão do Crime Organizado na Amazônia Legal: Violência, Narcotráfico e Exploração de Recursos Naturais

A biodiversidade da Amazônia Legal enfrenta uma nova ameaça. Em sua vasta extensão territorial, a região agora sofre com a invasão de facções do crime organizado. Seus nove estados e 772 municípios enfrentam a presença de organizações criminosas em 260 cidades, o que corresponde a 33,7% do total. Esse número representa um aumento de 46% em relação a 2022, quando 178 municípios estavam sob influência dessas organizações. O cenário evidencia a acelerada interiorização do crime e a conexão entre narcotráfico, crimes ambientais e disputas fundiárias.

A Dominação das Facções Criminosas

Organizações anteriormente restritas ao Rio de Janeiro, como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), tornaram-se as facções mais atuantes na região. O Comando Vermelho (CV) domina sozinho 130 municípios, enquanto o PCC, de origem paulista, controla 28. Outras 84 cidades convivem com a disputa e a guerra entre duas ou mais facções. Essa ocupação de regiões mais afastadas dos grandes centros urbanos é um reflexo direto de mudanças estratégicas nas organizações, que elevaram suas operações ao nível de redes mafiosas. Essas redes integram a produção, distribuição e venda de drogas e, atualmente, também exploram os recursos naturais da Amazônia Legal.

Pichação do Comando Vermelho na Comunidade Quilombola Sítio São João município, em Barcarena (PA) — Foto: Instituto Mãe Crioula

O CV e o PCC, que sempre disputaram territórios e mercados para expandir seus negócios ilegais, intensificaram seus embates após o rompimento em 2016, o que levou as facções a expandirem sua atuação pelo país em busca de novos territórios. O CV, por exemplo, adotou um modelo mais descentralizado e menos hierárquico, associando-se a grupos locais, como a extinta Família do Norte (FDN) e outras facções. Essa nova estratégia permitiu ao grupo consolidar sua presença em áreas estratégicas da Amazônia, onde passaram a dominar rotas de escoamento de drogas e territórios de produção, como plantações de coca no Peru.

Conexão entre Narcotráfico e Crimes Ambientais

As facções não se limitaram ao tráfico de drogas e começaram a estender seus tentáculos para atividades relacionadas a crimes ambientais. O PCC passou a explorar o garimpo ilegal de ouro, principalmente em terras indígenas, como a Yanomami, em Roraima e no Amazonas. A presença da facção nesse tipo de atividade atraiu não apenas garimpeiros, mas também membros das próprias facções, que atuam como seguranças ou negociadores de ouro, drogas e armas.

As organizações criminosas utilizam a exploração ilegal de recursos naturais, como ouro e madeira, para ampliar suas estratégias territoriais. Controlando as rotas de tráfico e áreas de desmatamento, as facções lucram não apenas com o comércio de drogas, mas também com outras atividades de alto retorno financeiro, como loteamentos clandestinos, criação de pastos e mineração. Esse novo modelo de atuação intensifica o desmatamento, viola direitos territoriais e coloca comunidades indígenas em risco.

Garimpo próximo de comunidade indígena na regiã do Polo Base Xitei, na Terra Terra Indígena Yanomami, em Roraima – Lalo de Almeida – Folhapress

Impactos no Cotidiano e na Violência

Com a chegada das facções, a rotina dos moradores das áreas dominadas foi profundamente alterada. O crime organizado impõe regras, como a proibição de roubos e a cobrança de taxas de comerciantes. O descumprimento dessas normas impostas pelo “governo paralelo” é sempre punido com violência e terror. O objetivo das forças do crime é legitimar seu domínio, especialmente em locais onde a presença do Estado não é percebida pela população.

Mesmo com uma redução de 6,2% na taxa de mortes violentas intencionais (MVI) entre 2021 e 2023, a região da Amazônia Legal ainda apresenta índices preocupantes. Em 2023, a taxa foi de 32,3 mortes por 100 mil habitantes, 41,5% superior à média brasileira de 22,8. Municípios como Cumaru do Norte (PA), com 141,3 mortes por 100 mil habitantes, e Nova Santa Helena (MT), com 102,3, lideram os rankings de violência, o que mostra o impacto das disputas por territórios e recursos.

A Interiorização do Crime

A expansão da influência territorial das facções criminosas para áreas rurais e remotas, transformou a Amazônia em uma rota estratégica para o mercado global de drogas. Portos como os de Manaus, Vila do Conde (Barcarena) e Santarém são pontos de escoamento para cocaína destinada a mercados internacionais.

Outro fator que explica o crescimento da presença das organizações criminosas é a dinâmica das prisões brasileiras, onde os criminosos estabelecem redes de contatos, promovendo alianças e adesões que fortalecem suas organizações. Grupos maiores e mais poderosos acabam absorvendo quadrilhas menos organizadas e estruturadas, como aconteceu com o Bonde dos 13 (Acre) e a Família Terror (Amapá), que foram incorporadas por organizações maiores. No entanto, algumas facções menores ainda permanecem em operação com autonomia, como o Bonde dos 40 (Maranhão).

Respostas e Desafios Institucionais

O enfrentamento ao crime organizado na Amazônia exige das forças de segurança e dos governos regionais e federal ações coordenadas. Estratégias como a Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (Ficco) e a Operação Curupira, que une segurança pública e órgãos ambientais, têm obtido resultados animadores, principalmente no controle do desmatamento. Contudo, o grande problema da região da Amazônia Legal é a tímida presença do Estado, especialmente em áreas mais remotas, uma realidade que favorece o fortalecimento e a expansão das facções criminosas.

Conclusão

A situação da Amazônia Legal evidencia uma crise complexa, com o entrelaçamento do crime organizado e a exploração ambiental, potencializado pela ausência do Estado em diversas áreas da região. O combate às organizações criminosas exige a adoção de estratégias integradas, que combinem políticas efetivas de segurança, opções de desenvolvimento sustentável e financeiramente viáveis para as populações locais, além da expansão da presença do Estado nas comunidades mais isoladas. Enquanto a população permanecer abandonada, continuará sob o domínio do crime.