Por: Luiz Fernando Ramos Aguiar Tenente Coronel RR da PMDF e Especialista em Segurança Pública
A maior operação já realizada contra o Primeiro Comando da Capital (PCC) está se tornando um fiasco histórico. Após a tentativa de adoção da paternidade da megaoperação por autoridades e corporações de todas as esferas de governo, os resultados duvidosos da ação e o desaparecimento misterioso de oito alvos da polícia trouxeram dúvidas sobre a integridade operacional da força-tarefa, em meio à suspeita de vazamento de informações. O que teria sido determinante para que os operadores mais importantes da corporação criminal do PCC escapassem ilesos por entre os dedos das autoridades brasileiras.
De acordo com declarações do próprio diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues: “De fato merece atenção que há 14 mandados de prisão e só 6 foram encontrados.” Como sempre, a constatação veio acompanhada de promessas de investigação, responsabilização dos envolvidos e da necessidade de colher mais informações para que se possa averiguar se houve algum tipo de vazamento.

“Merece atenção o fato de termos 14 mandados de prisão e apenas 6 cumpridos. Não é uma estatística normal das operações da Polícia Federal. Vamos analisar os relatórios das equipes em campo para verificar se houve vazamento. Se confirmado, abriremos investigação.” (Andrei Rodrigues)
Com a mobilização de mais de 1.400 agentes e centenas de mandados de busca e apreensão, em uma mobilização conjunta em vários estados brasileiros, o saldo de prisões foi de apenas seis envolvidos. Tendo em vista que havia 14 mandados de prisão para a operação, mais da metade dos alvos conseguiu escapar.
O PARADIGMA
Com o eufemismo clássico de quem é surpreendido pelo heterodoxismo ético do funcionalismo público no Brasil, Andrei Passos considerou que esse número baixo de mandados não cumpridos “não é uma estatística natural das operações realizadas pela corporação”. Ou seja, pelo jeito ele não tem uma ideia muito clara do que pode ter acontecido. O que pode ser resultado não apenas de um vazamento, mas principalmente de uma postura operacional que subestimou o poder de infiltração, cooptação e influência da facção criminosa, que há muito tempo já instalou seus tentáculos nos mais diversos órgãos do Estado brasileiro. Atualmente, desconsiderar essa evidência é garantia de fracasso em qualquer estratégia ou ação de enfrentamento ao crime organizado.
A operação contou com a participação de diversos órgãos e corporações, como Ministério Público de São Paulo, Gaeco, Receita Federal e polícias civis e militares. Infelizmente, quanto mais instituições e agentes envolvidos nas ações, maior o risco de comprometimento de informações. Isso exige compartimentação das informações, restrições de acesso aos alvos e ações de acordo com a necessidade de cada órgão ou agente envolvido. Um protocolo básico para que operações dessa natureza tenham sucesso. Não há informações sobre como foram os protocolos de compartilhamento de dados para a execução da operação, nem sobre a antecedência com que essas informações foram repassadas aos órgãos policiais, até porque se tratam de dados sigilosos. Mas outra falha que pode ter ocorrido é a participação de agentes políticos nos desdobramentos da operação, já que ela se transformou em verdadeiro troféu para diversas personalidades.
A captura política fica evidente quando lembramos que a Operação Carbono Oculto foi apresentada pelo ministro da Justiça como “a maior já feita contra a facção criminosa”.

Os criminosos foragidos não são pequenos operadores ou “laranjas” da organização. Na verdade, tratam-se dos principais responsáveis pelo esquema que transformou o PCC em um verdadeiro conglomerado empresarial do crime, que dominava toda uma cadeia produtiva. Personagens como Roberto Augusto Leme da Silva, o “Beto Loco”, e Mohamad Hussein Mourad, empresários apontados como peças centrais no domínio do setor de combustíveis. Ambos figuram como articuladores de empresas e distribuidoras que serviam de pilar econômico para o PCC.
E essa é a chave para entender a gravidade da situação: não se trata apenas de oito criminosos que escaparam, mas da possibilidade de haver infiltração, corrupção ou conivência dentro das próprias instituições que deveriam combater o crime. Além, é claro, da necessidade de entender como o uso político de operações de segurança pública pode favorecer o enfraquecimento da Justiça e das forças de segurança em seu trabalho de enfrentamento ao crime organizado.
INDÍCIOS DE VAZAMENTO
Os indícios de que houve vazamento de informações começaram a surgir já nas primeiras diligências.
Em Curitiba, por exemplo, os agentes chegaram a um prédio de quatro andares, usado como uma espécie de “escritório do crime”. Ali, segundo as investigações, empresários e donos de postos se reuniam para coordenar as operações bilionárias de fraude e lavagem de dinheiro. Mas, quando a PF entrou, o que encontrou foi quase uma cena de cinema: todos os computadores haviam sido retirados às pressas. Era como se alguém tivesse dado o aviso um dia antes.
Em outro endereço, os investigadores encontraram uma parede falsa. Atrás dela, estavam malas vazias. Não havia dinheiro, não havia documentos. Apenas o sinal claro de que algo tinha sido escondido ou retirado de última hora. Mais um indício de que alguém foi avisado antes que a porta fosse arrombada.
E não para por aí. Um dos alvos mais procurados, o empresário Rafael Renard Gineste, foi localizado em Bombinhas, Santa Catarina. Ele já possuía ficha extensa, tendo sido condenado a quatro anos e oito meses de prisão por corrupção ativa na primeira fase da Operação Pelicano, conduzida pelo Ministério Público do Paraná. Ele tentou fugir utilizando uma lancha de luxo e era considerado pelos investigadores como um integrante do núcleo financeiro da organização criminosa.
Isso coloca em xeque não apenas a efetividade da operação, mas também a credibilidade das instituições que deveriam estar blindadas contra esse tipo de infiltração.
A ENGRENAGEM CRIMINOSA EXPOSTA
Até aqui, já deu pra entender que o PCC não é mais apenas uma facção criminosa de presídios. O que as operações mostraram é que estamos diante de uma verdadeira multinacional do crime, com uma engrenagem financeira altamente sofisticada.
No coração dessa engrenagem estavam as fintechs da Faria Lima, que funcionavam como bancos paralelos da organização criminosa. A Receita Federal revelou que uma única fintech movimentou, entre 2020 e 2024, mais de R$ 46 bilhões.

Como isso era possível?
De acordo com as investigações, a facção usava gestores e fintechs para lavagem de dinheiro. O PCC recorria às chamadas “contas-bolsão” para tentar desvincular as contas das operações financeiras criminosas.
Utilizando esse modelo, as fintechs constavam como titulares de uma conta legal em um banco credenciado no sistema financeiro. A partir dessa conta eram operadas diversas subcontas em nome dos clientes finais, que não tinham nenhum vínculo direto com o banco onde a conta havia sido aberta.
Com essa estratégia, os usuários das subcontas conseguiam se camuflar do monitoramento das autoridades, protegendo-se de rastreamentos, quebras de sigilo e bloqueios judiciais.
Segundo a Receita Federal, esse mecanismo impedia o rastreamento do fluxo dos recursos e a identificação, pelos órgãos de controle e fiscalização, dos valores movimentados por cada cliente da fintech de forma isolada.
Dentro dessa conta misturada, circulava de tudo:
- dinheiro do tráfico de drogas,
- despesas pessoais de empresários,
- remuneração de colaboradores,
- pagamentos a postos de gasolina,
- compensações entre distribuidoras e fundos de investimento.
Mas as fintechs eram apenas parte do esquema. A engrenagem complexa das atividades econômicas da facção também incluía postos de combustíveis, distribuidoras, usinas de álcool, holdings e até padarias. Todas as fontes de comércio e negócios eram usadas para pulverizar os valores, dificultar o rastreamento e devolver o dinheiro “limpo” para os cofres da organização criminosa.
Da mesma forma, atividades criminosas diretas não eram deixadas de lado pelos criminosos e ajudavam a alimentar essa cadeia produtiva do crime:
- adulteração de combustíveis,
- venda de volume menor do que o registrado nas bombas,
- e até a importação irregular de metanol pelo Porto de Paranaguá, usado para baratear e multiplicar a produção adulterada.
O esquema garantia lucros bilionários e criava uma concorrência absolutamente desleal contra empresários do setor. Afinal, não havia como competir com uma facção criminosa que controlava toda a cadeia: da importação ao consumidor final. E ainda utilizava táticas desleais para fornecer produtos e serviços com custos menores e subsidiados por operações criminosas.
O mais impressionante é que esse império criminoso não se limitava a gerar dinheiro. Ele se retroalimentava. O lucro dos postos abastecia as distribuidoras, que financiavam as fintechs, que lavavam os recursos e devolviam para a compra de novas usinas, caminhões e imóveis de luxo.
Toda uma rede econômica, cobrindo todos os estágios, desde a produção até o consumidor final e anabolizada por recursos, não apenas de crimes financeiros, mas também das atividades criminosas diretas, como contrabando, tráfico de drogas ou qualquer outra atividade realizada pela facção. Toada a operação blindada por camadas de aparente legalidade.
Essa engrenagem mostra que o PCC não atua mais apenas na clandestinidade. Ele está infiltrado dentro da economia formal, usando as mesmas estruturas que deveriam gerar desenvolvimento para o país.
E é aqui que a ficha cai: estamos diante de uma facção que age como uma verdadeira corporation criminosa, com métodos empresariais, divisão de tarefas, setores e estratégias de expansão.
E a pergunta inevitável é: como enfrentar uma organização que já não se comporta como um bando de criminosos, mas como um conglomerado econômico internacionalizado?
ESTADO X FACÇÃO
A operação que tinha tudo para ser um golpe fatal no coração financeiro da maior organização criminosa do país acabou sucumbindo à politicagem e à corrupção.
O vazamento ou a antecipação das informações por parte dos articuladores permitiu ao PCC manter a memória institucional da organização e preservar a rede de contatos que possibilitou a cooptação de agentes públicos e privados. Essa mesma rede viabilizou a formação de um intrincado esquema financeiro, responsável pelo financiamento e consolidação da facção como uma verdadeira corporação empresarial do crime organizado.
Com a captura da operação pelas forças políticas, os profissionais envolvidos acabam desmotivados a arriscar suas vidas para investigar e montar operações, já que, ao final, podem ver seus esforços sendo desperdiçados e todo o seu trabalho tomado por interesses políticos e eleitorais. Um golpe forte na institucionalidade e nas políticas de segurança pública, que deveriam ser mantidas como metas de Estado, e não de governos.
Já o PCC sente que, por mais perto que as forças de segurança cheguem de seus ativos financeiros e de seus capitães empresariais, a facção pode confiar na corrupção, na burocracia e em seus contatos políticos para se manter viva no jogo. Mesmo que tenham tomado um prejuízo considerável e muitas de suas operações tenham sido comprometidas, os lucros obtidos durante os anos em que o esquema esteve de pé foram suficientes para que o grupo possa, sob a liderança ou orientação dos mentores intelectuais do esquema, bolar uma nova forma de camuflar seus ganhos ilícitos e ampliar seu poder. Não apenas nas periferias e cadeias, mas também nos gabinetes palacianos e nos escritórios refinados da Faria Lima.
